Hub

Artigo: Responsabilidade socioambiental é cada vez mais estratégica para as empresas

Imagem: Artigo: Responsabilidade socioambiental é cada vez mais estratégica para as empresas

 

Há tempos, a sustentabilidade socioambiental deixou de ser um tema de ativistas, permeando todos os segmentos da sociedade. A ideia de investimento sustentável já foi vista como uma escolha entre valor e “valores pessoais”, e hoje se entende que os fatores ambientais, sociais e de governança podem ser associados ao potencial de crescimento em longo prazo de uma empresa.

E mesmo no mercado financeiro essa ideia não é nova.

Dentre os exemplos, temos os Princípios do Equador, de 2003, um conjunto de critérios socioambientais, de adoção voluntária por instituições financeiras em nível mundial, referenciados nos Padrões de Desempenho sobre Sustentabilidade Socioambiental da Internacional Finance Corporation (IFC) e nas Diretrizes de Meio Ambiente, Saúde e Segurança do Banco Mundial. Consistem em avaliações ambientais, proteção a habitats naturais, gerenciamento de pragas, segurança de barragens, populações indígenas, reassentamento involuntário de populações, propriedade cultural, trabalho infantil, forçado ou escravo, projetos em águas internacionais e saúde e segurança no trabalho.

Um outro exemplo é do economista Muhammad Yunus, criador do conceito de “negócio social” e ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 2016, com seu trabalho para erradicar a pobreza através do desenvolvimento econômico e social utilizando um modelo de oferecimento de microcrédito para a população carente de Bangladesh, pelo banco que criou, o Grameen Bank.

Uma pesquisa da Global Sustainable Investment Alliance (GSIA — Aliança Global de Investimento Sustentável), colaboração internacional de organizações de investimento sustentáveis, mostra que, na Europa, cerca de 60% dos investimentos possuem temáticas socioambientais. Nos Estados Unidos, a quantidade chega a 40%. Já no Canadá, Japão, Austrália e Nova Zelândia, aproximadamente 10% do mercado é considerado “responsável”.

Assim, verificamos que nas últimas décadas surgiu e se consolidou a ideia de investimentos “sustentáveis”, “responsáveis” ou “de impacto”. Nomenclaturas para designar fundos e índices acionários que reúnem empresas com boa gestão dos seus impactos sociais e ambientais, além de programas de promoção da ética, transparência e aderência às leis (governança corporativa).

Quatro fatos que indicam que 2020 é um divisor de águas no posicionamento do mercado financeiro frente à sustentabilidade ambiental:

1. O TCI Fund Management, maior hedge fund e que registrou o melhor desempenho mundial no ano passado, anunciou que pressionará as empresas de seu portfólio a reduzirem as emissões de gases de efeito estufa e divulgarem a pegada de carbono, caso contrário, atuará para destituir conselhos ou vender ações.

2. A Black Rock, maior empresa em gestão de ativos, através da tradicional carta anual de seu CEO, Larry Fink, alinha a instituição com os objetivos do Acordo de Paris de 2015, alertando os conselhos de empresas para intensificar os esforços no combate às causas das mudanças climáticas, informando que fortalecerá seu compromisso com a transparência em suas atividades de gestão, estando disposta a votar contra a administração, se considerarem que as empresas não estão fazendo progresso suficiente nas ações de sustentabilidade, podendo até sair de investimentos.

3. O Fórum Econômico Mundial em Davos, na celebração de sua 50ª reunião anual, teve como lema “Grupos de interesse para um mundo coeso e sustentável”, e tratou dos desafios e oportunidades advindos da Quarta Revolução Industrial, principalmente com foco em: como salvar o planeta, economias mais justas, trabalhos do futuro, melhores negócios, futuros saudáveis e tecnologia para o bem-estar, além da geopolítica.

4. Por fim, o Bank for International Settlements (BIS — organização internacional que reúne 55 bancos centrais de todo o mundo), publicou o livro The Green Swan. Com base no entendimento de que as mudanças climáticas se tornaram um fator determinante nas perspectivas de longo prazo das empresas, os autores identificam cinco tipos de riscos associados às mudanças climáticas, e que podem contribuir para uma crise financeira. São eles: Risco do crédito (eventos extremos podem acarretar dificuldade dos devedores em honrar seus compromissos, além da depreciação dos ativos utilizados como garantia); Risco dos mercados (mudanças acentuadas na percepção de rentabilidade, poderá haver vendas rápidas de ativos desencadeando uma crise financeira); Risco de liquidez (dificuldade de bancos e instituições financeiras em não conseguirem se refinanciar no curto prazo, devido aos fatores anteriores); Risco operacional (quando, como resultado de um evento climático extremo, escritórios, redes de computadores ou data centers têm problemas em funcionar) e Risco de cobertura (no setor de seguros, uma quantidade maior de sinistros poderia ser acionada, colocando as empresas do ramo em xeque).

Obviamente que esses quatro exemplos não se materializaram num rompante, mas foram frutos das crescentes discussões acerca das mudanças climáticas e os impactos dos eventos extemos, que temos visto ao longo dos últimos anos e que tiveram seu ápice em 2019.

Com esse cenário, fica claro que no mercado de inovação, as cleantechs terão cada vez mais destaques, abrindo-se janelas de oportunidades para cada vez mais negócios com foco em seus principais pilares: gerenciamento de recursos/resíduos; produção de energia; transporte e logística; agricultura e alimentação; materiais e produtos químicos.

Mas é impossível falar em sustentabilidade e não pensar nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Retornando ao início do texto, quando se falou de investimentos “sustentáveis”, “responsáveis” ou “de impacto”, estes consideram não só as questões ambientais, como também as sociais, que impactam o potencial de crescimento em longo prazo de uma empresa: populações tradicionais, trabalho infantil, forçado ou escravo, igualdade de gênero, ou seja, todos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Já existem diversos exemplos concretos de abordagens e modelos de negócios não simplesmente inovadores, mas disruptivos no sentido de ambientalmente amigável e socialmente responsável.

Porém, apesar de todos os posicionamentos historicamente assumidos quanto às responsabilidades individuais e coletivas em relação às questões de sustentabilidade socioambiental, a realidade é menos poética, afinal “inovação boa é aquela que resolve a vida do cliente”.

Não é à toa que um estudo apresentado pela CBInsights listou as 393 startups que em agosto de 2019 valiam US$ 1B ou mais. Dessa lista, todas, independentemente do setor (delivery, saúde, finanças, IA, hardwear, etc) ou do modelo de negócio (B2B ou B2C) entregam soluções aos clientes individuais.

Entendendo que cada vez mais os investimentos responsáveis serão foco, dando mais oportunidades às cleantechs, como ficam as iniciativas baseadas na economia verde ou modelos de negócios baseados em negócios sociais? Há potencial para que uma startup com modelo de negócio não focado no individual, mas sim no coletivo (minorias sociais, nichos ecológicos, comunidades tradicionais, …) alcance o status de unicórnio?

Mas, ei que surge o COVID-19 e o mundo não será mais o mesmo.

Atualmente vivemos situações que nunca passamos e que fomentou duas vertentes de pensamentos distintos. A vertente que defende a reclusão, “achatando a curva de infectados”, evitando a sobrecarga aos sistemas de saúde para esperar passar com o mínimo de vítimas possíveis, em contraposição à corrente de pensamento que trata da recessão, originada da queda acentuada das atividades econômicas, levando milhares de pessoas ao desemprego, com efeito deletério para a própria população.

Assim, à primeira vista, face à crise instalada, tudo que foi discutido anteriormente fica meio deslocado da realidade, afinal esse é o prenuncio de uma recessão mundial. Mas, o contraditório exposto no parágrafo anterior nada mais é do que o cerne de toda a discussão até aqui.

A consultoria Kantar Worldpanel apresenta um relatório em que indica quais são as principais questões no relacionamento das marcas com seu público neste momento:

· Pense no futuro e faça verificações constantes de temperatura para entender a mudança do humor e do sentimento do público;

· Lembre os consumidores do futuro e permita-lhes fazer planos concretos com muita flexibilidade e risco mínimo;

· Apoie os consumidores com ideias, produtos e serviços que os ajudem a se adaptar e que se sintam bem em aproveitar ao máximo uma situação difícil;

· Pense em como você pode desempenhar um papel na manutenção do bem-estar mental e emocional e ajudar as pessoas a criar espaços nos quais gostam de estar;

· Reconheça que os consumidores desejam ser mais ativos e criativos com seus produtos e serviços. Permitir aprendizado e desenvolvimento;

· Quais são os novos elementos essenciais que sua empresa pode oferecer? Entenda quais necessidades das pessoas continuam sendo individuais, mas que o acesso a certas coisas parece crítico no momento.

Assim, quando as empresas mudam seu posicionamento, tirando o foco exclusivamente na venda de seus produtos e serviços, e até mesmo passam a fornecer equipamentos e demais itens necessários para o combate à pandemia do COVID-19, como empresas automotivas produzindo respiradores e purificadores de ar, ou empresas de bebidas e de produto de beleza focando na produção, envase e distribuição de álcool gel, elas o fazem também pela percepção da necessidade do coletivo. É obvio que, apesar do apelo social, são claramente ações de fortalecimento da marca.

Esses exemplos demonstram o entendimento implícito sobre o posicionamento com responsabilidade junto ao coletivo que, como discutido até aqui e demonstrado pela Kantar Worldpanel, está cada vez mais arraigado junto às empresas e empreendedores. Começamos também a entender mais sobre o social, ou seja, entender que não é mais só sobre mim ou minha empresa, mas sobre quem está em volta de mim e como eu posso me conectar com essas pessoas verdadeiramente.

E como inovação se encaixa nesse contexto?

Quando for mitigada ou acabar, a pandemia do COVID-19 poderá deixar como legado um mundo mais descentralizado e com profundas alterações na forma com que nos relacionamos, consumimos, vivemos. Estudos indicam que nos EUA um terço daqueles que estão atuando em home office não acham que deverão voltar ao escritório ou à fábrica depois da crise. Enquanto aqui há uma tendência de se valorizar o “local”, um exemplo é a campanha #compredopequeno. Sem contar o boom dos serviços de delivery e e-commerce.

Por outro lado, deveremos avançar em discussões mais difíceis.

A partir da sucessão de escândalos envolvendo privacidade, o mundo caminhava numa direção de proteção individual, ao ponto de o próprio Mark Zuckerberg afirmar que o próximo capítulo da inovação é privacidade, durante a conferência anual realizada pelo Facebook.

Porém, o monitoramento das pessoas, através da geolocalização dos seus celulares, foi uma forma que diversos países, incluindo o Brasil, têm utilizado no combate à pandemia. O que faz lembrar de diversas distopias que tratam do papel do Estado no controle da sociedade e a privacidade da população, com a diferença de que esta é a primeira vez que o tema surge como realidade.

Com isso fica cada vez mais sedimentada a percepção de que este momento não é apenas uma crise de saúde de imensa proporção, é também um vetor para uma reestruturação da economia global, com impacto radical na vida das pessoas e das empresas.

Com esse impacto radical, é inevitável que as pessoas comecem a ter novos comportamentos. Ideias que não são tão novas assim, como home office e videoconferência, deixaram de ser simples conceitos para se transformar na realidade do dia-a-dia. E, sem dúvidas, o COVID-19 foi fundamental para acelerar a transformação digital em grande parte das empresas. Estamos acelerando diversos processos de mudança que a sociedade já passaria.

Mas, no ecossistema de inovação, acredito que emergirá uma nova dimensão da percepção de risco. Tudo parecia simples, fácil e positivo numa realidade em que o novo, especialmente em termos de tecnologia, era premiado com capital abundante e os benefícios do mercado financeiro. Com as atuais perspectivas econômicas essa abordagem não será mais possível, pois os riscos assumidos até aqui custarão muito caro para muitos.

Mais do que simples provocações, entender esse cenário futuro permite vislumbrar não só novas rotas de desenvolvimento e inovação, mas principalmente novas oportunidades em negócios originais.

Estamos em um momento de alta complexidade e de incertezas maiores ainda, mas onde residem as maiores oportunidades. Afinal, o que é o empreendedor senão aquele que vai sempre contra as “verdades” e realidade vigente?

Compartilhe essa notícia:
Autor(es) do Post
SERGIO TUTUI
Diretor Executivo
Você pode obter mais informações através do e-mail stutui@fundepag.br

Priscila Mayumi (Colaboração)
Fundepag